Passamos a vida inteira com os olhos fixos lá longe. Estamos hipnotizados pelo alvo: o futuro que queremos, a resposta que esperamos, o lugar onde a flecha tem que acertar.
E porque só olhamos para lá, vivemos ansiosos. Nossos gestos são apressados. Nós “atiramos” nossos projetos, nossas palavras e nossos afetos no mundo, torcendo para que eles “grudem” em algum lugar. Estamos tão focados no resultado que nos tornamos estranhos ao processo.
Mas existe um outro caminho. Um caminho que o arqueiro nos ensina em silêncio.
Observe-o. O segredo dele não está na mira, mas na pausa.
Antes de qualquer movimento, ele para. Ele não está pensando na última flecha que errou, nem na glória da próxima que acertará. Ele está, por um instante, apenas ali.
Ele sente os pés no chão. Isso não é um detalhe poético; é a sua âncora. É o seu corpo dizendo à sua mente: “Nós estamos aqui. Agora.” Ele sente o ar que entra e sai, e com isso, ele não está apenas respirando; ele está se tornando o mestre do próprio ritmo, recusando-se a ser arrastado pela pressa do mundo.
Ele então se posiciona. E aqui está o segredo do seu alinhamento: o arqueiro não vira o corpo. O seu tronco, o seu centro, permanece firme, voltado para a jornada. Ele apenas vira o rosto para o alvo, e o corpo se alinha a partir dessa estabilidade.
É nesse momento que ele ergue o arco. Seus braços ficam alinhados. E algo muda. O arco não é uma ferramenta para forçar o mundo; o arco e a flecha se tornam a extensão de quem ele é. A flecha não é um objeto; é a sua intenção pura, tornada visível.
E então, o momento do esforço. Ao puxar a corda, ele não está apenas dobrando a madeira; ele está reunindo-se. É o instante em que ele convida seu corpo (a postura firme), sua mente (o foco claro) e sua emoção (o coração calmo) a se alinharem em um único ponto, através daquele canal criado pelos seus braços.
É por isso que o “soltar” é o gesto mais bonito. Não é um empurrão desesperado. É uma abertura. É o momento de confiança total, onde ele abre a mão e permite que aquela intenção alinhada siga seu curso, pois sabe que a flecha apenas seguirá o percurso que já foi definido internamente. Ele fez o que lhe cabia.
O alvo? O alvo é apenas o feedback.
Às vezes, a flecha não acerta o centro. E o mestre arqueiro sabe o porquê. Ele sabe que não foi o vento. Foi o pequeno tremor da dúvida, o pensamento que se intrometeu, a respiração que se prendeu por um segundo. O alvo apenas revela, com honestidade brutal, como estava o seu mundo interno naquele exato instante.
Todos nós somos arqueiros.
A cada decisão que tomamos, a cada conversa que temos, a cada “eu te amo” que dizemos, estamos soltando uma flecha.
A questão que fica, e que talvez leve uma vida inteira para responder, é: no momento do “soltar”, nós estávamos inteiros ali, com o centro estável, sentindo o arco e a respiração? Ou nossos olhos já estavam tão fixos no alvo que nem percebemos que a flecha já tinha partido?
Texto escrito por
Larissa Costa
Neuropsicanalista / Palestrante
Instagram : @larissa.tcosta


